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=PARA VIVER COM POESIA=

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as
únicas que o vento não consegue levar:
um estribilho antigo, o carinho no momento preciso,
o folhear de um livro,
o cheiro que um dia teve o próprio vento...

=(Mário Quintana - Para Viver Com Poesia)=





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quarta-feira, 5 de março de 2014

Affonso Romano de Sant'Anna=BIOGRAFIA=


Affonso Romano de Sant'Anna

"Às vezes, você perde vários poemas, porque sente uma frase, sente algo murmurado no seu espírito e não presta atenção porque está ocupado com os ruídos da vida. É necessário apurar o seu ouvido, ter a humildade de anotar a coisa mesmo quando ela não é muito boa. Pode, de repente, um texto meio nebuloso, meio esquisito, meio simplório demais, dar raiz a um poema posteriormente interessante."

Affonso Romano de Sant'Anna é um caso raro de artista e intelectual que une a palavra à ação. Com uma produção diversificada e consistente, pensa o Brasil e a cultura do seu tempo, e se destaca como teórico, como poeta, como cronista, como professor, como administrador cultural e como jornalista.
Com mais de 40 livros publicados, professor em diversas universidades brasileiras - UFMG, PUC/RJ, URFJ, UFF, no exterior lecionou nas universidades da California (UCLA), Koln (Alemanha), Aix-en-Provence (França). Seu talento foi confirmado pelo estímulo recebido de várias fundações internacionais como a Ford Foundation, Guggenheim, Gulbenkian e o DAAD da Alemanha, que lhe concederam bolsas de estudo e pesquisa em diversos países.
Nascido em Belo Horizonte (1937), desde os anos 60 teve participação ativa nos movimentos que transformaram a poesia brasileira, interagindo com os grupos de vanguarda e construindo sua própria linguagem e trajetória.
Data desta época sua participação nos movimentos políticos e sociais que marcaram o país. Embora jovem, seu nome já aparece nas principais publicações culturais do país. Por isto, como poeta e cronista foi considerado pela revista “Imprensa”, em 1990, como um dos dez jornalistas que mais influenciam a opinião de seu país.
Nos anos 70, dirigindo o Departamento de Letras e Artes, PUC/RJ, estruturou a pós graduação em literatura brasileira do Brasil, considerada uma das melhores do país. Trouxe ao Brasil conferencistas estrangeiros como Michel Foucault e apesar das dificuldades impostas pela ditadura realizou uma série de encontros nacionais de professores, escritores e críticos literários além de promover a “ Expoesia” - evento que reuniu 600 poetas num balanço da poesia brasileira.
Durante sua gestão, pela primeira vez no país a chamada literatura infanto-juvenil passou a ser estudada na universidade e a ser tema de teses de pós-graduação. Foram também abertos cursos de Criação Literária com a presença de importantes escritores nacionais.
Foi autor, dentro da universidade, de trabalhos pioneiros sobre música popular, como o livro "Música popular e moderna poesia brasileira".
Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil (pesquisa e copydesk), Senhor(colaborador) ,Veja(critico), Isto É(Cronista), colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi cronista d da Manchete e do Jornal do Brasil . e está n'O Globo desde 1988.
Considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no sentido de desenvolver uma “linhagem poética” que vem de Gonçalves Dias, Bilac, Bandeira e Drummond, realmente substituiu este último como cronista no “Jornal do Brasil”, em 1984. E foi sobre Carlos Drummond de Andrade a sua tese de doutoramento (UFMJ), intitulada:"Drummond, o gauche no tempo", que mereceu quatro prêmios nacionais.

Nos duros tempos da última ditadura militar, Affonso Romano de Sant'Anna publicou corajosos poemas nos principais jornais do país, não nos suplementos literários, mas nas páginas de política . Poemas como “ Que país é este?” (traduzido para o espanhol, inglês, francês e alemão), foram transformados em “posters”, aos milhares, e colocados em escritórios, sindicatos, universidades e bares.
Nessa época produziu uma série de poemas para a televisão (Globo) .Esses poemas eram transmitidos no horário nobre, no noticiário noturno e atingiam uma audiência de 60 milhões de pessoas.
Como presidente da Biblioteca Nacional — a oitava biblioteca do mundo, com oito milhões de volumes — realizou entre 1990 e 1996 a modernização tecnológica da instituição, informatizando-a, ampliando seus edifícios e lançando programas de alcance nacional e internacional.
Criou o Sistema Nacional de Bibliotecas, que reúne 3.000 instituições e o PROLER ( Programa de Promoção da Leitura), que contou com mais de 30 mil voluntários e estabeleceu-se em 300 municípios em 1991 lançou o programa “Uma biblioteca em cada município”.
Criou na Biblioteca Nacional os programas de tradução de autores brasileiros, de bolsa para escritores jovens e encontros internacionais com agentes literários.
Seu trabalho à frente da Biblioteca Nacional possibilitou que o Brasil fosse o país-tema da Feira de Frankfurt( 1994), o país-tema, na Feira de Bogotá(1995) e no Salão do Livro( Paris, 1998).
Lançou a revista “Poesia Sempre”, de circulação internacional, tendo organizado números especiais sobre a América Latina, Portugal, Espanha, Itália, França, Alemanha.
Foi Secretário Geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas(1995-1996), que reúne 22 instituições desenvolvendo amplo programa de integração cultural no continente.
Foi Presidente do Conselho do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe-CERLALC), 1993-1995.
Como poeta participou do “International Writing Program”(1968-1969) em Iowa, USA, dedicado a jovens escritores de todo o mundo.
Tem participado de dezenas de encontros internacionais de poesia. Esteve no Festival Internacional de Poesia Pela Paz, na Coréia(2005) , realizou uma série de leituras de poemas no Chile, por ocasião do centenário de Neruda (2004), esteve na Irlanda, no Festival Gerald Hopkins (1996), na Casa de Bertold Brecht, em Berlim (1994), no Encontro de Poetas de Língua Latina (1987), no México, no Encontro de Escritores Latino-americanos em Israel (1986).
Mereceu vários prêmios nacionais destacando-se o da Associação Paulista de Críticos de Arte pelo "conjunto de obra".
Foi júri de uma série de prêmios internacionais como o Prêmio Camões (Portugal/Brasil), Prêmio Rainha Sofia (Espanha), Prêmio Peres Bonald (Venezuela), Prêmio Pégaso/Mobil Oil (Colômbia/USA), Reina Sofia (Espanha).
Diversos textos seus foram convertidos em teatro, balé e música e tem diversos CDs de literatura gravados com sua voz e na voz de atores diversos.
Sua obra tem sido objeto de teses de mestrado e doutorado no Brasil e no exterior.
Recebeu algumas das principais comendas brasileiras como Ordem Rio Branco, Medalha Tiradentes, Medalha da Inconfidência, Medalha Santos Dummont.

É casado com a escritora Marina Colasanti.

Obras do biografado:
Poesia (Brasil):
"Canto e Palavra"- 1965 - Imprensa Oficial de Minas Gerais
"Poesia sobre Poesia"- 1975 - Imago/RJ
"A Grande Fala do Índio Guarani"- 1978 - Summus Editorial/SP
"Que País é Este?"- 1980 - Civilização Brasileira - 1984 - Rocco/RJ
"A Catedral de Colônia e Outros Poemas"- 1987 - Rocco/RJ
"A Poesia Possível" (poesia reunida) - 1987 - Rocco/RJ
"O Lado Esquerdo do Meu Peito"- 1991 - Rocco/RJ
"Epitáfio para o século XX" (antologia) - 1997 - Ediouro/SP
"Melhores poemas de Affonso Romano de Sant'Anna - Global/SP
"A grande fala e Catedral de Colônia" (ed. comemorativa) -1998 - Rocco, Rio
"O intervalo amoroso" (antologia). - 1999 - L&PM/Porto Alegre
"Textamentos" - 1999 - Rocco/RJ
"Vestígios" - 2005 - Rocco/RJ
"A cegueira e o saber" - 2006 - Rocco/RJ
Poesia (Exterior):
"Antologia de Poesia Brasileira" (org. Jose Valle Figueiredo) - 1970 - Verbo, Portugal.
"Antologia de La Poesia Latinoamericana (1950-1970) (org. Stfan Baciu) - 1974 - State University of New York, 1974.
"Litérature du Brèsil (Revue Europe)" - 1982 - Paris, França.
"Beispilsweise Koln-Ein Lesebuch herausgegeben von H. Grohler" - G. E. Hoffman, H. J. Tummers, Lamuv Verlag, Alemanha, 1984.
"Translation: The Journal of literary Translation" - 1984 - Spring Columbia Univ.
"Lianu Liepsna (Brazily naujosios poezijos antologija)" (Antologia de poesia brasileira em lituano) - 1985 - Org. Povilas Gaucys, Chicago.
"South Easser Latin americanisis" - 1985 - Univ. Miami
"A posse da terra (escritor brasileiro hoje)" (org. Cremilda Medina) - 1985 - Imp. Nacional/Casa da Moeda/Sec. Cultura, SP.
"Antologia da poesia brasileira" (org. Carlos Nejar) - 1986 - Imp. Nacional/Casa da Moeda, Portugal.
"Brazilian literature" - 1986 - Special Issue. Latin American Literary Review, Univ. Pittsburgh.
"Anthologie de la nouvelle poèsie brèsilienne" (org. Serge Borjea) - 1988 - Harmatan, Paris.
"Okolice (miesiecznick spoleczno-literacki)" - 1992 - Marzec, Polônia
"Epitáfio para el siglo XX" - 1994 - Fundarte - Caracas, Venezuela
"Antologia da Poesia Brasileira" - 1994 - China, Emb. do Brasil - Pequim
"Liberté/Brasil Lirtéraire" - 1994 - Montreal, Canadá
"Das Gediche (Zeitschrife fur lyrik, Essay und Kritik)" - 1995 - AGHL, Alemanha.
"Vision de la poesia brasileña" (org. Thiago de Mello) - 1996 - Instituto Libro Santiago, Chile.
"Tierra de Nadie" (antologia de nueve poetas latinoamericanos) - 1996 - Ed. Una, Costa Rica.
"Neue lateinamrikanishee poesial" - Nueva Poesía America Latina. Rowohir Literatur Magazin, 38, Hamburg, 1996.
"Review: Latin American Literature and Arts" - 1996 - America Societe, New York, USA.
" brasiliani contemporanei" - 1997 - Silvio Castro. Centro Internazionale della Grafica di Venezia. Univ. Padora, Itália.
"Affonso Romano de Sant' Anna & Carlos Nejar: deux poètes brésiliens contemporains" (org Regina Machado) - 2000 - La Sape, Centre Nationnale de Lettres, Paris.
Antologias de Poesia (Brasil):
"4 poetas" - 1960 - Universitária, Belo Horizonte
"Violão de rua I" - 1962 - Civilização Brasileira
"Violão de rua II" - 1963 - Civilização Brasileira
"Violão de rua III" - 1963 - Civilização Brasileira
"Poesia da fase moderna" (org. Manuel Bandeira e Walmyr Ayala) - 1966 - Ediouro
"Poesia viva" (org. Moacyr Felix) - 1968 - Civilização Brasileira
"Poesia contemporânea" (org. Henrique Alves) - 1985 - Roswitha Kampf - SP
"Carne viva" (org. Olga Savary) - 1984 - Anima/RJ
"O Imaginário a Dois "- 1987 - Artetexto/RJ (com Marina Colasanti)
"Sincretismo: a poesia da Geração 60" (org. Pedro Lyra) - 1995 - Topbooks
"Poesia contemporânea, cadernos de poesia brasileira" - 1997 - Cadenos de Poesia Brasileira. Inst. Cultural Itaú, SP
"Baú de Letras" (antologia poética de Juiz de Fora) - 2000 - Funalfa, Juiz de Fora
"Os cem melhores poetas brasileiros do século" (org. José Nêumanne Pinto) - 2001 - Geração Editorial,SP
Crônicas:
"A Mulher Madura"- 1986 - Rocco/RJ
"O Homem que Conheceu o Amor"- 1988 - Rocco/RJ
"A Raiz Quadrada do Absurdo"- 1989 - Rocco/RJ
"De Que Ri a Mona Lisa?"- 1991 - Rocco/RJ
"Mistérios Gozosos"- 1994 - Rocco/RJ
"A vida por viver" - 1997 - Rocco/RJ
"Porta de Colégio" (antologia) - 1995 - Ática/SP
"Nós os que matamos Tim Lopes" - 2002 - Expressão e Cultura
"Pequenas seduções" - 2002 - Sulina
"Que presente te dar" - 2002 - Expressão e Cultura
"Antes que elas cresçam" - 2003 -Landmark
"Os homens amam a guerra" - 2003 - Francisco Alves
"Que fazer de Ezra Pound" 2003 - Imago
Ensaios:
"O Desemprego da Poesia"- 1962 - Imprensa Universitária de Minas Gerais
"Drummond, o "gauche" no tempo" - Record/Rio - 1990
"Política e Paixão"- 1984 - Rocco/RJ
"Análise Estrutural de Romances Brasileiros" - 1989 - Ática/Petrópolis
"Por um novo Conceito de Literatura Brasileira"- 1977 - Eldorado/RJ
"Música Popular e Moderna Poesia Brasileira" - 1997 - Vozes/Petrópolis
"Emeric Marcier "- 1993 - Pinakothec/RJ
"O Canibalismo Amoroso"- Rocco/RJ - 1990
"Paródia Paráfrase & Cia."- 1985 - Ática/SP
"Como se Faz Literatura "- 1985 - Vozes /Petrópolis
"Agosto 1991: Estávamos em Moscou"- 1991 - Melhoramentos/SP (com Marina Colasanti)
"O que aprendemos até agora?" - Edutifia, São Luís, Maranhão (1984). Ed. Universidade de Santa Catarina - SC, 1994
"Barroco, alma do Brasil." - 1997 - Comunicação Máxima/Bradesco, RJ Reeditado em inglês, francês e espanhol , 1998
A sedução da palavra(ensaio e crônicas). Letraviva. Brasili, 2000
Barroco, do quadrado à elipse. Rocco,Rio, 2000
Desconstruir Duchamp, Vieira e Lenti Casa Editorial, 2003
Prosa e Ensaios (participações):
O livro do seminário (1ª. Bienal Nestlé de Literatura), 1982
Crônicas mineiras. Ática, 1984
A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector (textos críticos). Co. Arquivos, Unesco, 1988
Tv ao vivo. Brasiliense, 1988
Homenagem a Manuel Bandeira, UFF/ Presença, Rio, 1989
Palavra de poeta. Denira do Rosário. José Olympio, Rio, 1989
Auto-retratos.Giovani Ricciardi, Martins Fontes, São Paulo, 1991
Drummond (arte em exposição). Salamandra, Rio, 1990
Minas liberdade. Secretaria de Cultura de Minas Gerais, 1992
O amor natural. Carlos Drummond de Andrade (prefácio), Record. Rio, 1992.
Cartas de Mário de Andrade. Nova. Fronteira, Rio, 1993
Hélio Pelegrino. A-deus. Vozes, Petrópolis, 1990
131 posições sexuais (o sexo visto por 131 personalidades) Org./ Lu Lacerda
Tiradentes, teu nome é liberdade, Máxima Comunicação, Rio, 1992
O livro ao vivo. Centro Cultural Cândido Mendes, Rio, 1995
Crônicas de amor. Ceres, SP, sem data
Brasil e Portugal: 500 anos de enlaces e desenlaces - volume 01 - (org. Gilda Santos). Real Gabinete Português de Leitura, Ano 2000, Rio
Para entender o Brasil.(org. Marisa Sobral Luiz Antonio Aguiar), Alegro, São Paulo,2000
Brasil e Portugal 500 anos de enlaces e desenlaces, volume 02 - Real Gabinete Português de Leitura, 2001,Rio
Prosas e Ensaios (participações no exterior):
Confluences littéraires(Bresil-Quebec). Les bases d"une compairaison.Les Editions Balzac,Montreal, 1992
Les riques du métier. L'Exagone.Quebec. Montreal. Canadá, 1990
Cuentos Brasileños. Andres Bello, Chile, 1994
O Brasil no limitar do sec. XXI. Frankfurt am Main,TFM, Frankfurt, 1996
Libraries, social inequalities and the challenge of the twenty first century.Dedadus(Journal of the American Academy of Arts ans Sciences,Fall 1996).
Tropical Paths: essay on modern brazilian literature (Org. Randal Jonhson) Ed.Garland, N. York/London, 1993
Brésil, poèsie du corpos. M. Leroy-Patay- M.E. Malheiros Poulet, La taillanderie, Lyon, 2000
"Lusofonia, mentiras e realidade" in "Veredas (Revista da Associação Internacional de Lusitanistas), Fundação Eng. Antonio de Almeida, Porto, 2000
Multimídia:
Cds:
Affonso Romano de Sant'Anna por Tônia Carrero. Luzdacidade. Niterói, 1998.
Crônicas escolhidas (com participação de Paulo Autran). Luzdacidade, Niterói, 1999.
"O escritor por ele mesmo" Instituto Moreira Salles, 2001.
Prêmios Literários:
"Prêmio Mário de Andrade" - Com o livro "Drummond, o gauche no tempo."
"Prêmio Fundação Cultural do Distrito Federal" - Com o livro "Drummond, o gauche no tempo."
"Prêmio União Brasileira de Escritores" - Com o livro "Drummond, o gauche no tempo."
"Prêmio Pen-Clube" - Com o livro "O canibalismo amoroso"
"Prêmio União Brasileira de Escritores" - Com o livro "Mistérios Gozosos"
"Prêmio APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte", pelo conjunto de obra
As informações acima foram enviados pelo autor
fonte: BLOG Releituras.

Amor e Medo=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Chegando em Casa=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Chegando em casa
com a alma amarfanhada
e escura
das refregas burocráticas
leio sobre a mesa
um bilhete que dizia:

- hoje 22 de agosto de 1994
meu marido perdeu, deste terraço:

mais um pôr de sol no Dois Irmãos
o canto de um bem-te-vi
e uma orquídea que entardecia
sobre o mar.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Separação=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Reflexivo=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Fascínio=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço. Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estrou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Cena Familiar=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Densa e doce paz na semiluz da sala.
Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha
desenha patos e flores.
Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa
nas artimanhas do espião.
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz.
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade
que transborda da moldura do poema.
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos,
relembranças de viagens e a lareira acesa.
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros,
é uma nave iluminada.
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Limites do Amor=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, sem empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Despedidas=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Silêncio Amoroso – 2=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Amar a Morte=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Amar de peito aberto a morte.
Não de esguelha, de frente.
Amar a morte,
digamos,
despudoradamente.

Amá-la como se ama
uma bela mulher
e inteligente.Amá-la
diariamente
sabendo que por mais
que a amemos
ela se deitará
com uns e outros
indiferente.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Arte-final=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
quem toma uma por outra
confunde e mente.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Catando os Cacos do Caos=


Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.

Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.

Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim

Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora

( Affonso Romano de Sant’Anna )

Assombros=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

( Affonso Romano de Sant’Anna )

O Amor e o Outro=( Affonso Romano de Sant’Anna )=


Não amo
melhor
|
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
|
até com nojo.
Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

( Affonso Romano de Sant’Anna )
(O lado esquerdo do meu peito: livro de aprendizagens. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. p. 104)

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