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=PARA VIVER COM POESIA=

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as
únicas que o vento não consegue levar:
um estribilho antigo, o carinho no momento preciso,
o folhear de um livro,
o cheiro que um dia teve o próprio vento...

=(Mário Quintana - Para Viver Com Poesia)=





...







quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Receita de mulher=Vinicius de Morais=


As muito feias que me perdoem Mas beleza é fundamental.
É preciso Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente
em azul, como na República Popular Chinesa). Não há meio-termo
possível. É preciso Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso Que seja tudo belo
e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas Lembrem um verso de Éluard e que se
acaricie nuns braços Alguma coisa além da carne: que se os toque Como o
âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos Que é preciso que a mulher
que ali está como a corola ante o pássaro Seja bela ou tenha pelo menos
um rosto que lembre um templo e Seja leve como um resto de nuvem: mas que
seja uma nuvem Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos,
então Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente. Gravíssimo é porém o problema das
saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras É como um rio sem pontes.
Indispensável Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios Sejam uma expressão greco-romana,
mais que gótica ou barroca E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima
de cinco velas. Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! Os membros que
terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas E que elas sejam lisas,
lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem No entanto sensível
à carícia em sentido contrário. É aconselhável na axila uma doce relva com aroma
próprio Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) Preferíveis sem dúvida
os pescoços longos De forma que a cabeça dê por vezes a impressão De nada ter a ver
com o corpo, e a mulher não lembre Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos
góticos Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior A 37º centígrados,
podendo eventualmente provocar queimaduras Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de
preferência grandes E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão Que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos
altos píncaros. Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja,
não venha; parta, não vá E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente
e nos fazer beber O fel da dúvida. Oh, sobretudo Que ela não perca nunca, não importa em
que mundo Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade De pássaro;
e que acariciada no fundo de si mesma Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave;
e que exale sempre O impossível perfume; e destile sempre O embriagante mel; e cante
sempre o inaudível canto Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição Constitua a coisa mais bela e
mais perfeita de toda a criação inumerável.

=Vinicius de Morais=

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